domingo, 26 de abril de 2020

Babel

Eu não sei o que Deus criou.
Mas eu sei que o ser humano faz merda quando quer brincar de Deus.

A paixão estava aí.
O sexo.
Uma coisa incapturável, livre, sem molde, sem métrica.
Escondida, mas que se desvelava quando queria, com total despudor. À revelia.
A paixão era a bossa nova, a melodia. A paixão era a rainha dos desesperados, era a musa dos trovadores. A paixão simplesmente era. Movia-se, de canto em canto, mudava de face e encontrava o mesmo alguém de tempos antes, totalmente repaginada. Não vivia por completo quem não a havia encontrado. Não voltava a viver quem não a via, ainda que de relance, descendo as ruas ou fumando um cigarro, uma vez mais.

O sexo era a mordida na maçã. Era o experimentar. Era cruzar a fronteira entre a miragem e o prazer pleno. Deus lançou aos homens a paixão e o sexo era o toque do divino e do profano. 

Até que o homem decidiu tornar-se Deus. Eis a Babel. Criou o amor. 
Insano, um devaneio, subversivo. Um perigo horrendo. Arbitrário, negligente, respondão. Irresponsável, egoísta. Um saco! Aprisionou a liberdade do maior presente dos céus. O fim do livre arbítrio. O pecado original. 
Não há nexo em por o amor entre a paixão e o sexo. 

O amor é a cicuta socrática. A flecha no calcanhar do herói. Transformar a paixão em amor é inserir a tragédia no épico. 
O amor é o anticlímax da catarse. A escrachada demonstração da incapacidade do homem de ser soberano e decidir por si. A bobagem que Deus permitiu existir para escancarar a lição de que homem só pode ser homem. 

O sexo é o céu, a paixão é o purgatório. O amor é o inferno, lar dos desvairados.

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