quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Carta a quem não se interessa

Nao vou te tirar do anonimato, já que o que tivemos nunca teve nome. Não vou chorar, porque tuas lágrimas em nosso último encontro já dão conta da emoção que um dia nos envolveu - e que, contra meus incansáveis esforços, morreu há tempos. Me disseram que eu preciso deixar ir. E como faz quando eu não sei? O que sobra quando a partida, pra mim, é a morte? De fato, pareço chegar atrasado para o derradeiro adeus, visto não ter sido convidado para o funeral. Cremação, eu suponho, pelos restos de cinzas jogados pelo salão. Me teria feito bem, por uma última vez, encarar seus olhos, mesmo que já inanimados, gélidos e fixados - não lá tão distintos de quando em vida - para dizer que entendo e lamento a sorte que nos foi outorgada pela juventude dos nossos dias e desatinos dos nossos impulsos. Nossos, digo, porque, ainda que negues (e não morreste negando?), fizeste tua escolha, confusa, até incompatível com alguns sinais; tampouco carrego culpas pelo que senti. Tua partida me regala espaço para novos sentires. No fim, foi eutanásia. E tu mesmo puxaste os fios. Que a morte nos seja leve. 

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