Existe algo que nos escapa nas verdades. Não que alguém saiba o que é. Não que a modulação da verdade seja acessível ao consciente.
Você há de tomar seu café às seis e poucos da manhã. Buscará algo para ler ou assistir, enquanto se prepara para o trabalho. Nada diferente de ontem ou dos dias anteriores. Antes, um banho – para acordar, você dirá.
Do seu lado estará o comum.
- Você está sempre muito feio pela manhã.
As suas palavras serão tão sinceras quanto a busca dos pulmões pelo ar. Tão honestas quanto todas as anteriores. Você jamais conhecerá outra opção, senão a verdade. Ao sair, você dirá:
- Não me espere; não volto hoje. Vou encontrar alguém.
Nenhuma sensibilidade lhe ocorrerá. Tudo permanecerá como de costume. Você enfrentará o trânsito caótico das ruas e da consciência, chegará ao trabalho right on time, abrirá sua organizada e tediosa agenda e fará sua parte. Como de costume. Inexorável. Como de costume. Tudo será, absolutamente... igual.
Você tornará à sua casa no dia seguinte. Exausto – como de costume. Alguém abrirá a porta para que você entre. Não haverá sorriso ou palavra.
- Faz café?
Você caminhará até a cozinha, não prestando atenção à nada – como de costume.
E será aí, exatamente aí, durante mais dia comum, que um singular mover das louças, junto de um toque sensível no cabelo, dirá o mesmo algo de sempre, mas de maneira tal que você nunca havia escutado. A sua reação? Qual mais poderia ser, senão...
- Você está lindo.
A vida começará.
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